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(Nota: sempre que utilizar aqui a expressão "clientes/compradores de vintage", refiro-me a compradores de vestuário e acessórios vintage, não compradores de objectos vintage de todo o tipo. A redação é pessoal _mas transmissível _ e a minha experiência circunscreve-se a este âmbito. Quanto ao termo "vintage", o seu uso aqui segue a definição aceite pela generalidade da indústria têxtil e de Moda, designando peças produzidas no intervalo de 20 a 100 anos, representativas de uma das décadas em questão).


Sobre o tema, "comércio vintage", muitas vezes nos interrogam/interrogamos: quem são os clientes das lojas vintage? Podemos traçar um perfil ou perfis do cliente vintage? Existe uma persona "vintage lover"? Os "iniciados" no vintage têm vindo a aumentar?

Parece-me preferível listar razões para as pessoas procurarem comprar em lojas vintage, a traçar um ou mais perfis, sendo que existem clientes com mais do que uma razão enquanto outros são movidos apenas por uma causa.

Questões também pertinentes e que raramente surgem seriam: "Os vendedores/proprietários de negócios vintage terão um perfil-tipo ou vários perfis-tipo? Poderemos estabelecer uma lista de razões para vender vintage?"

As razões que movem comerciantes não serão nem uma só nem comum a todos. Algumas sim outras não. Conhecer/compreender quem são os vendedores e que espaços e ofertas põem estes ao dispor dos compradores deve preceder a tentativa de traçar perfis ou listar razões de compradores. Por isso, neste post fala-se de vendedores, o próximo incide sobre compradores.


(Um aparte sobre os vendedores: entre aqueles que são alvo de entrevista ou interesse jornalístico, muitos há que evocam repetidamente terem sido acometidos por um "bichinho" sabe-se lá vindo de onde, que se lhe instalou nas entranhas e não mais os largou. Sempre que ouço ou leio (...) "Fiquei com o bichinho do vintage", frase-doença recorrente em entrevistas, só me evoca a ténia ou outra espécie de parasita/verme e penso "será que a minha avó, quando me dizia /tens a bicha solitária/ era a isto que se referia?"".

É mais ou menos como quando alguém diz "tenho uma criança dentro de mim" e penso logo que estará grávido/a; eu prefiro ter um palhaço dentro de mim, que solto, às vezes em modo comédia, outras em modo filme de terror).


Voltando realmente ao assunto (acho que vou perder-me algumas vezes, daí cortar o post em dois, que vai ser longo), combinar todas as premissas de compradores e vendedores num negócio harmonioso nem sempre se torna fácil.

Diz-me a experiência que há quem se envolva neste negócio do vintage não por amor nem por dinheiro (ou ambos), mas por engano (entendendo "por engano" como "sem ter espírito vintage", que também não sabemos muito bem o que é!!!). Só para complicar a vida aos outros dois hipotéticos (amor e dinheiro).

E algum deste "engano" (com consequências mais para compradores pouco avisados do que para vendedores) é responsabilidade de uma "third party"; refiro-me a um jornalismo inconsequente e repetitivo _ em modo copy paste _ com pouco cuidado de investigação ou de informação prévia, feito por pessoas que não distinguindo elas próprias o que é vintage repetem e reciclam textos sobre vintage sem novidade, e/ou sem interesse próprio pelo tema, apenas porque "todos falam nisso agora" e (des)informam um público, induzindo-o em erro. Acrescem a este "drama", os/as "influencers" também pouco informados/as e consequentemente maus (más) informadores do que esperar de cada local e/ou vendedor/a. Mas isso dá tema completo para um dos próximos posts. Adiante.

Sempre afirmei que segui esta actividade (venda) por paixão: paixão pela beleza das peças feitas noutras épocas e conservadas até ao presente, paixão pela descoberta de verdadeiros tesouros, em estética e/ou qualidade... Ao refletir agora mais seriamente sobre isto, identifico mais a manifestação de um síndrome/quadro clínico do que uma paixão _ embora as duas coisas se confundam bastante na prática. Quero dizer com isto que a criação do negócio passou mais por um processo de terapia do que pela continuidade de uma paixão precoce. Esta explicação segue a mesma linha de projectos que criaram empresas de serviços de limpeza totalmente constituídas por pessoas com distúrbios obsessivo-compulsivos. Permitia-se assim, a estas pessoas, uma resolução pessoal e realização profissional através da concretização das suas compulsões e sem o estigma de perturbação ou doença. Também eu, após quase 40 anos de compra/coleccionismo de vestuário e acessórios vintage, descobri a solução para poder continuar a praticar o que me dava enorme prazer, sem culpa e sem problemas de espaço ou consciência. De facto, o grande prazer de muitas pessoas como eu não reside na venda (mesmo que sejamos vendedores) mas sim na descoberta e na compra das peças. As vendas só tornam possível o desejado: comprar tudo o que apreciamos e valorizar esse TUDO partilhando-o com um público, sem armazenar nem guardar. Uma terapia eficaz. E (mais ou menos) lucrativa.

Outros responsáveis pelo negócio do vintage não o farão por razões semelhantes. Conheço quem o faça como outro negócio qualquer, tendo as peças comercializadas o mesmo valor ou interesse que teria o vestuário em 1ª mão, móveis ou fruta, tendo apenas identificado uma "oportunidade" ou "um nicho de mercado" relacionado com tendências.

Há pessoas que apreciam as peças, mas não consomem eles próprios vintage regularmente enquanto outros são vintage "total look" (e os "in between") _ um pouco como os dealers que só vendem drogas pelo lucro, sem consumir vs. os que vendem para, em parte, continuarem a poder "sustentar o seu consumo/adição. Há pessoas que compram lotes "cegos" enquanto outras escolhem toda a sua mercadoria, peça por peça. Pessoas que se preocupam efectivamente com o ambiente e a sustentabilidade e outros que nem por isso, mas sustentam que sim (apresentem-me UM comerciante que tenha iniciado o seu negócio vintage para salvar o planeta!). Pessoas que vão à caça das suas maravilhas e outras que praticamente só recebem consignações no recanto das suas lojas. Pessoas que compram e vendem e outras que só vendem, negócios que se fazem exclusivamente on-line e outros com loja físicas, ou uma mistura de ambos ...

A panóplia é grande e os espaços e ofertas são também variados, de acordo com a postura de cada um, sendo mais provável que um negócio de vintage desenquadrado de uma verdadeira apreciação desse tipo de peças acabe mais cedo ou mais tarde por mudar de rumo ou desaparecer do que outro feito "por amor ao vintage".

Haja diversidade. Preciso é que as expectativas de quem nos procura estejam esclarecidas sobre o que vão encontrar.

Primeiro, há que distinguir entre comércio vintage e comércio de "segunda mão": há lojas que vendem ambos, outras só vendem um dos dois tipos de artigos. É rara a peça vintage em loja que não é de segunda mão. No entanto, é muito frequente encontrarmos lojas de "segunda mão" onde artigos vintage são raros ou inexistentes.

Não esquecer também as peças retro: hoje em dia muitas das cadeias multinacionais de vestuário apostam em alguns modelos retro como tendências, em cada "season", reproduzindo modelos vintage em produção actual.

Estas iniciativas de produção retro são excelentes salva-vidas da paciência dos vendedores vintage. Porquê? porque permitem a compradores que não amam propriamente o vintage em geral, mas gostam de um modelito ou outro mais "trendy", realizar uma compra fácil sem ter de se embrenhar na linguagem única do vintage.O retro salva o vintage de compradores ao engano e facilita a vida destes compradores:


"Tem calças de cintura subida"?...como as que se usam agora?" /sou cool e tal/ ..."que giro, olha esta blusa!... Olha que até tem umas coisas que eu usava!!! "tem isto mas em M?" / "Vai ter mais iguais? ... / "Ok, aqui não me entendo"/"... anda, vamos ao shopping que é mais fácil, tem S, M e L e posso comprar pra mim e pra miga igualzinho sem ciúmeira de estilo!".


... Salva a nossa paciência também, poupando-nos energia para "vintage lovers".


Temos ainda comércio vintage com foco direccionado, por exemplo, para artigos de luxo, brands, designers... Também neste nicho específico encontramos por vezes pouco cuidado na distinção entre vintage e segunda mão, com algumas lojas a comercializar artigos de luxo de segunda mão relativamente recentes ao mesmo tempo que se auto intitulam de comércio vintage, antes se assemelhando a outlets de uma determinada marca (há sempre algumas mais redundantes, entre os consignatários), muitas vezes com modelos ligeiramente fora de época mas longe ainda do rótulo vintage.


(Blusões de Oleg Cassini, fim da década de 80/ princípio de 90, à venda aqui e aqui

Há também lojas que apostam apenas em marcas/designers com projecção actual, enquanto outros incluem nas suas ofertas designers hoje em dia já desconhecidos de um grande público, se não forem interessados por Moda. Por exemplo, se dissermos Chanel, Prada ou YSL, Burberry's ...todos sabem do que se fala, mas se mencionarmos Hannae Mori, Jonhatan Logan, Oleg Cassini, Yuki Tori ou Krizia, teremos possivelmente de explicar a muitos clientes quem são/eram. Se vendermos um artigo Max Mara, a venda não carece de explicações, mas se for um Marni (linha feminina da Max Mara nos anos 80/90) teremos provavelmente de "explicar" a peça! Ou se apresentarmos um vestido da Mondi!...

No nosso caso concreto, não estamos direccionadas para artigos de designer, mas quando

acidentalmente temos algumas peças destas tentamos, ao comercializá-las, respeitar o valor do designer sem no entanto esquecer o respeito pelo cliente, na informação prestada e no equilíbrio entre o preço de aquisição e da venda.


( da esquerda para a direita, vestido Mondi, anos 90, vestido Escada Couture anos 80 e vestido Marc Jacobs, à venda aqui e aqui )

Esta foi uma grande volta antes de chegar finalmente ao que me trouxe a este post: a tal persona vintage lover, mais os que não sabem ao que vão e os que sabem mas não não são vintage lovers at all!

Ao falar dos vendedores foi impossível não ir falando também de compradores. Pudemos ir desenhando a ideia de que há diversidade e que (quase) todos eles merecem um lugar na variedade de ofertas e estratégias na venda. As razões que os movem são o assunto do próximo post!








Parte 2

(In)congruências e contradições: criação e produção de vestuário de género neutro no universo da Moda actual.


Parti para esta procura com a ilusão de encontrar movimentos inovadores de moda que concretizassem a ideia: "A moda não tem género".

Os resultados centraram-se (quase) invariavelmente em temas como "9 Sustainable Gender-Neutral & Gender-Inclusive Brands For Your Next Wardrobe Refresh ", "14 Gender-Neutral Clothing Brands For All....", "Gender neutral fashion brands to know...", ou até "Men can wear dresses....!", não enveredando por artigos científicos e/ou trabalhos académicos.

Listavam-se "novas" linhas de criação e produção de vestuário alegadamente no gender ou de género fluido, aliadas muitas vezes a outros conceitos também "very trendy", como sustentável e/ou slow fashion.

Na prática? Vestuário de traços quase minimalistas, linhas retas, cinturas elásticas, ganchos e cortes amplos, cores neutras; quando há padrões, os preferidos são quadriculados, geométricos, abstratos e tartans; tecidos, opta-se pelos "naturais" (linho, seda, algodão...).

Por muito que as ofertas estejam embrulhadas para presente no gender, são muito mais do mesmo: tentativas de neutralidade através de linhas seguramente mais "masculinas" (ver post anterior).

Representam estratégias preguiçosas, a meu ver, quanto à intenção de cumprir neutralidade de género. Cumprir este requisito na indústria da Moda deveria focar-se em desconstruir os enraízados conceitos que orientam todo o design e produção de moda, com peças para géneros bem definidos _ para muitos ainda em sistema binário _ e mutuamente exclusivos, resultando em que apenas um determinado género tenha acesso ou seja incentivado a adquirir determinadas peças de vestuário. Qualquer pessoa deve poder usar qualquer peça de vestuário. É esta a ideia original que deveria levar à desconstrucção.

No entanto, o que encontramos é um movimento de criação de peças que atenuam morfologias, traços físicos e/ou identitários considerados pelos criadores/produtores como inibidores de compra/uso por parte de algumas pessoas. Na prática, retiram-se às peças formas/características marcadamente femininas, quer físicas (estrutura óssea e outras caraterísticas morfológicas) quer de identidade de género estereotipada (padrões florais, tons rosa ou bubblegum, folhos, laçadas, etc...). O “gender-neutral look“ acaba por ser apenas mais um estilo ou tendência, entre outros, e muito pouco neutro, em género. Mais uma vez, o male gendered , agora disfarçado de no gender!


(alguns exemplos de criações alegadamente no gender que encontrei nas pesquisas realizadas)


Quando critico as produções/as peças, não critico a estética: sou fã deste tipo de vestuário (fui inclusive praticante do estilo tomboy nos anos 80). A minha paixão pelo vestuário asiático em parte prende-se com características como estas, que agora são generalizadas aos movimentos no gender de moda.



( eu a apostar no tomboy style nos “late 80’s”)


Os asiáticos sempre deram cartas neste tipo de design sem ter de, para isso, defender statements alegadamente inovadores ou de defesa de direitos de género. Aposte-se na exuberância ou no minimalismo (como ilustram aqui algumas criações de Rei Kawakubo/Comme Des Garçons e de Issey Miyake), nenhuma característica da peça definirá um género se não for essa a intenção de quem concebe/produz/vende. Nas imagens que mais abaixo vemos podemos confirmar que não serão folhos e cores “pinky“ ou padrões florais que definirão que a peça é "feminina", da mesma forma que não serão traços mais sóbrios, rectos ou geométricos que definirão e destinarão a peça "ao masculino".


Aliás, o fenómeno no gender actual na moda é uma preocupação marcadamente do mundo ocidental. A experiência pessoal de estadias regulares no Japão e/ou na Tailândia por exemplo, permitiu-me, desde o fim dos anos 80 a esta parte, observar e conviver com pessoas ditas masculinas (impecavelmente) vestidas com roupas ditas femininas _ ou vice versa_ a trabalhar em todo o tipo de actividades, ou a circular nas ruas sem lhes ser votada qualquer atitude discriminatória, excepto por parte dos turistas ocidentais.


( da esquerda para a direita, criações de Rei Kawakubo/Comme Des Garçons, e criações de Issey Miyake _ fotos 2 e 3 _ dos anos 80, no Metropolitan Museum of Art)


O que critico na maioria das estratégias com que me deparei não é a estética, que aprecio bastante. É o facto de essas serem apresentadas como a concretização de um manifesto de não-discriminação que me continua a parecer acentuadamente discriminatório _ e que, como tentativas de desconstrução de moda de género, resultam fracas e pouco consistentes. Apenas funcionam para comercializar peças com uma determinada linha/estilo (nada mais que isso) através de uma "cosmética" de princípios que não cumprem.


( mais algumas criações actuais alegadamente “no gender”


Reclama-se a si a acção e o contributo e não se faz reflexão crítica da prática nem dos resultados. Acabam por ser formas preguiçosas de diluição de características que espartilhariam pessoas em peças de acordo com o género, limitando-se a "tentar colocar todas as variedades de pessoas no mesmo saco/na mesma roupa". Apenas optimizando pelo "masculino".

Assumir e declarar que "as roupas não têm género" deveria ser muito mais do que o acima descrito. Deveria significar que toda a gente tem direito a usar todo o tipo de vestuário que entender sem que, por isso, lhe seja atribuída qualquer "classificação de género" ou, ao contrário, qualquer crítica por estarem "a usar peças do género errado"; e que, para isso, tem de existir um trabalho implicado, por parte das pessoas e entidades responsáveis/envolvidas, de facilitação do acesso de todo o tipo de vestuário a toda a gente, independentemente de géneros ou sua ausência.

Possibilitar isto implicaria, na prática, trabalhar a dois níveis: conceptual e de produção.

Quanto ao conceito, implica liberdade total de criar, não estereotipificar as criações, não designar géneros para uso das peças em criação, não fazer depender as criações de apenas um género (embora a inspiração de um criador possa ter como base determinado grupo-alvo).

Quanto à produção, implicaria diversificar o acesso, distribuir, publicitar e colocar (tanto no espaço físico como online) sem distinguir ou separar por género. Para permitir o acesso inclusivo, seria necessário, em vez da padronização pelo "masculino" que tem vindo a ser feita, inovar nos "size charts", integrando/incluindo diferentes morfologias nos cortes de uma mesma peça, produzindo opções de compra que se estendessem para além dos habituais tamanhos _ dando assim possibilidade a que, todas as pessoas que quisessem, pudessem usar uma mesma peça, seja ela um vestido de organza em padrão floral, umas calças de smoking ou uma blusa de laçada.

Só então teríamos estratégias coerentes com os princípios que representam.

Ao reconhecermos diversidade nas pessoas, com igual direito de acesso às peças, em vez de reduzirmos diversidades a uma única linguagem de moda alegadamente representativa do no gender mouvement, deixaríamos de ter estratégias de criação "win-loose" (masculino -1/ feminino e outros géneros ou nenhum - 0), pasando a estratégias "win-win" quanto a não distiguir por género ou sua ausência, entre pessoas.

Uma outra possibilidade (real, está já a ser praticada por alguns seguidores de no gender fashion genuínos) seria o "feito à medida", solução que permite o acesso universal de uma criação a toda a gente que queira usá-la, porque é dedicado a cada pessoa para quem se produz a peça.

Em termos comerciais? Combina perfeitamente com o conceito da "slow fashion" mas é obviamente um caminho ainda longo quanto aos lucros do processo. Por isso, também, pouco atractivo para muitos que se auto proclamam seguidores do movimento.

Nem tudo foi, no entanto, desilusão nesta pesquisa: encontrei estratégias/criadores que considero genuínos na vontade de inovar e na defesa do conceito ( foi o caso da Origami, criações de lingerie e swimwear da responsabilidade de Rachel Hill, citando um exemplo, https://origamicustoms.com/); encontrei também pessoas com contributos fortes e profundamente coerentes, entre discurso e prática. A propósito, já com este post concluído, foi-me dado a conhecer, através de uma cliente/amiga, o trabalho de Alok V Menon, com cujo discurso me identifiquei completamente. Fico sempre muito contente quando encontro alguém que expressa de forma completa e clarissima aquilo que penso e não consigo expressar tão bem. Embora com o Alok a dizê-lo muito melhor do que eu, decidi publicar o que já tinha escrito, mas deixo aqui o monólogo dele para a BoF voices 2019, no final deste post, para que o possam apreciar tanto quanto eu.

Estas excepções mostram-nos que há um caminho a percorrer, bem diferente do que muitos alegam ter conseguido.

Produzir moda para Pessoas, muito mais do que um discurso ou uma estratégia comercial é um processo complexo e difícil de cumprir, pelo nível de exigência conceptual, de desconstrução de valores, estereótipos e (pre)conceitos enraízados, de mudança de discurso. E até financeira, de negócio. Se este processo complexo não antecipar a produção, não há no gender que vingue.


Como co-responsável de um comércio de vestuário vintage, serviu este post também para reflectir sobre que contributo podemos nós dar. Não somos envolvidos na criação e produção das peças, já que comercializarmos vestuário e acessórios criados noutras décadas, logo, longe de movimentos no gender actuais.

No entanto, contribuir é possível: não separar/localizar peças por género, não expôr nos manequins peças a partir de uma linguagem apenas masculino/feminino, não fornecer informação através de um discurso discriminatório, mas no entanto informar _ sobre cortes e tamanhos destinados originalmente a um dos géneros do binário. Por exemplo, não dizer "estas calças são para mulher" porque efectivamente são para toda a gente, são para quem as quiser usar; mas informar que "são de corte feminino" ou que "são um tamanho 36 feminino", porque isso significa um corte de perna com medida diferente do masculino, um gancho mais curto do que o mesmo 36 "masculino", etc.

Trabalhar para informar, mas não para discriminar, ao nível das várias formas de comunicação disponíveis no contacto com as pessoas-clientes é a nossa forma possível de contribuir para um movimento no gender. E nem estes pequenos contributos serão fáceis de pôr em prática: misturar as peças, não as separar por género, vai dificultar a escolha/compra a muitas das pessoas que nos frequentam (uma maioria habituada a comprar peças destinadas originalmente a um dos géneros do binário) e talvez as vendas. Os princípios acima das personalidades, caminho nem sempre fácil de articular com justiça _ para que tomemos consciência da complexidade de tarefas aprentemente simples, Se é assim em pequenos passos, imaginem todo o caminho a percorrer para uma verdadeira no gender fashion!

(que é como quem diz que é mais fácil falar do que fazer, ou que "pepper in others’ ass is refreshment, my dear”)





Comecei a investigar o tema “no gender” vs. binário" _ que ganha uma cada vez maior expressividade na área da Moda _ e fui-me apercebendo do que considero ser um conjunto de incongruências e contradições nos movimentos de moda "no gender" actuais. Desiludi-me, confesso, com algumas das estratégias desenvolvidas actualmente, quer de criação quer de produção de “moda no gender". Fiquei com uma enorme vontade de discutir o tema: contestar a direcção de alguns movimentos, as estratégias. E, principalmente, a falta de reflexão crítica na prática do discurso por parte de alguns dos actuais movimentos.

Embora a intenção fosse optar por um texto de opinião, mais do que informatIvo, não consegui evitar uma parte descritiva, antes de partir para a discussão, embora sem explorar com detalhe a evolução histórica do tema, focando-me mais no actual impacto em áreas específicas do vestuário e Moda. Para o texto não ficar demasiado longo, publico-o por partes.


PARTE I

"Conceitos, evolução e impacto"


Que a moda e a forma de vestir são comunicação, estamos fartos de ouvir, saber e (re)conhecer. A forma como nos vestimos e apresentamos é, foi sempre, também uma forma de comunicarmos: estatuto, desejos, orientações religiosas ou sexuais, exercício profissional, poder, pertença, intervenção política e/ou social... uma panóplia de informações que, umas intencionalmente, outras sem grande consciência individual, veiculamos e partilhamos, pela forma como utilizamos vestuário e acessórios no nosso dia-a-dia (quantos mal-entendidos, quanta informação distorcida... quantos enganos... ). A progressiva tomada de consciência do potencial de comunicação que o vestuário representa e o impacto que pode ter em várias áreas, levou a que questões de discriminação e/ou afirmação de direitos através do vestuário tenham vindo a ser abordadas, muitas delas beneficiando de mudanças e estratégias mais inclusivas (lembro dois exemplos: forma física/volume _ magros vs. gordos_ e género_ masculino vs. feminino, alvos preferenciais de intervenção positiva recente).


No que diz respeito ao género, até há bem pouco tempo as preocupações diziam respeito à discriminação entre masculino/feminino criadas pela linguagem do próprio vestuário (sendo estas questões parte de um protesto mais alargado, sobre papéis de género, socialização, distribuição desigual de poderes e direitos...).

O espartilhar de géneros sublinhado pelo vestuário tornou-se mais marcado a partir da Revolução Industrial (houve épocas históricas anteriores em que vestuário masculino e feminino se assemelhavam muito mais _ vejam-se por exemplo, as túnicas da Grécia Antiga ou o vestuário retratado em pinturas dos séc. XVI).


(da esquerda para a direita, vestuário na Grécia Antiga e duas pinturas do séc. XVI com vestuário da época)

Já no início do século XX, principalmente depois da mulher conquistar o direito de voto, foram surgindo movimentos femininos de uso de vestuário marcadamente masculino. Não encontrei o inverso com a mesma força de expressão: ao que parece, a não discriminação pelo vestuário foi-se fazendo sempre mais pela concessão, às mulheres, do uso de vestuário "masculino" (nos anos 20, com a criação de calças, blazers, smoking suits... e macacões; mais tarde, com novas tendências de carácter masculino _ Boyish, Tomboy, e mais recentemente, a tendência Boyfriend's...). Não encontramos equivalente masculino, nem na apropriação do uso de saias e/ou vestidos, nem de tendências (excepto algumas colecções que pontualmente incluíam nas criações masculinas uma destas peças _ Gaultier ou McQueen são disso exemplo) .


(da esquerda para a direita, vestuário anos 20, boyish style nos anos 40 e boyfriend's jeans)


Até as medidas criadas por regimes políticos, como o uso de fardamento na China da Revolução Cultural, ou a obrigatoriedade de uniforme em instituições educativas, embora tivessem, além da diluição de diferenças de classe comunicadas pelo vestuário, diluído também diferenças entre masculino/feminino, fizeram-no mais através do desaparecimento/diluição do caracter " feminino" das peças, "masculinizando-as" em generalidade.


Mesmo as manifestações de luta pelo direito à escolha de uniforme escolar, independente de género, em 2017 (e que conseguiram que, em Inglaterra, por exemplo,150 escolas tivessem passado a permitir a livre escolha das peças do uniforme), resultaram na adopção de calças por parte de muitas alunas, mas não na adopção de saias por parte de muitos alunos; em Montreal, manifestações semelhantes mostram estudantes masculinos usando saias como forma de exigir direito de escolha de uniformes independente do género, mas as saias que usam são... kilts (uma variante reconhecidamente "masculina" desta peça de vestuário). De novo, as duas faces da moeda não se verificam; como se o feminino ganhasse poder ao apropriar-se do direito ao vestuário masculino, mas o masculino enfraquecesse ou ficasse em situação desvantajosa, ao assumir o inverso.



(da esquerda para a direita, juventude chinesa na época da revolução cultural e manifestações pelo direito à livre escolha das peças do uniforme escolar)

As preocupações não discriminatórias entre masculino/feminino mais recentes reafirmam que homens e mulheres devem poder usar roupa “dita” feminina ou masculina como bem entenderem, sem ser(em) de alguma forma segregados ou desvalorizados individual ou socialmente por isso. No entanto, continua a verificar-se um grande desequilíbrio entre uso de roupa feminina por pessoas do género masculino e o seu inverso. Basta lembrarmos que ressaltamos ainda hoje a coragem de uma pessoa de género masculino que integre no vestuário de dia-a-dia uma saia ou um vestido, mas que não nos passa pela cabeça fazer o mesmo relativamente a uma pessoa de género feminino que use calças.

Na presente conjuntura, temos assistido a uma necessária modificação dos protestos, não na ideia de que “As roupas não têm género” _ esta mantém-se _ mas na alteração do conceito de “género”, que deixa de atender a uma definição binária “masculino-feminino” para englobar outras possibilidades, muitas delas nem sequer incluídas entre os dois pólos do binário, estando fora deste espectro.


Antes de falar do impacto actual do movimento “no gender” na criação e produção de moda, faço aqui um parêntesis que tenta esclarecer os conceitos.

A evolução nas áreas de intervenção científica, médica e estética, para a modificação de características atribuídas a um dos géneros da classificação binária, o desenvolvimento de estudos, ao nível da psicologia e saúde mental, de par com a aceitação progressiva de outras formas que não apenas a identificação binária com um género masculino ou feminino, têm permitido também uma evolução da utilização do conceito de género (ou sua ausência), a que temos vindo a assistir, se andarmos atentos.

Reconhece-se actualmente, quanto ao conceito de género, que, para além das pessoas que se identificam com um dos dois géneros do binário masculino-feminino, existem pessoas não binárias: estas podem identificar-se como pertencentes a ou mais géneros, ou a nenhum, ou mover-se fluidamente entre dois ou mais géneros ou nem sequer reconhecer a existência/pertinência do conceito.

A identidade de género, assim descrita, não se relaciona com a orientação sexual ou romântica da pessoa, tendo as pessoas não-binárias as mesmas opções de orientação sexual/romântica que as binárias.

Do que é dito se compreende que surjam, na área da Moda, novas preocupações de não discriminação de género pelo vestuário que ultrapassam as anteriores preocupações "binárias" _ possibilitar diferentes formas de criação e produção de Moda, que possam ser opção para pessoas tanto binárias como não binárias, o que introduz novas variáveis na criação/produção.


Quando comecei a pesquisar o que estão neste momento a fazer os criadores e produtores de Moda que pretendem cumprir objectivos “no-gender” (e percebemos que sejam apenas alguns, dado os não binários representarem ainda uma pequena percentagem de consumidores de moda) por um lado, a minha expectativa era encontrar estratégias que não discriminassem pelo género (prefiro até o conceito de “moda inclusiva” ao de “moda de género neutro”, adiante explico porquê) e que, por outro lado, usassem o conceito “género” como inclusivo de todo o espectro de pessoas binárias e não binárias (mesmo aquelas que não aceitam sequer o próprio conceito).

Esperava encontrar criações e produção que distinguissem clientes apenas por estruturas corporais/formas/medidas considerando essas diferenças na acessibilidade a uma mesma peça/criação em vez de basearem criações e produção num "estilo neutro": não-masculino, não feminino, não-outro”. O que significará realmente "estilo neutro", face ao género? Parece-me desde já terreno perigosamente ambíguo para definições.

A próxima parte deste post discute estas questões; identificam-se práticas mais e menos coerentes com os princípios defendidos, sugerem-se alternativas e discute-se ainda o papel do comércio de vestuário vintage no processo de não-discriminação de género(s)!

(Continua)


LSD - Fashion Stories

por Lígia Sousa