Vintage/quem vende e quem compra: os amantes, os principiantes e os "vou ao shopping e compro novo"

(Nota: sempre que utilizar aqui a expressão "clientes/compradores de vintage", refiro-me a compradores de vestuário e acessórios vintage, não compradores de objectos vintage de todo o tipo. A redação é pessoal _mas transmissível _ e a minha experiência circunscreve-se a este âmbito. Quanto ao termo "vintage", o seu uso aqui segue a definição aceite pela generalidade da indústria têxtil e de Moda, designando peças produzidas no intervalo de 20 a 100 anos, representativas de uma das décadas em questão).


Sobre o tema, "comércio vintage", muitas vezes nos interrogam/interrogamos: quem são os clientes das lojas vintage? Podemos traçar um perfil ou perfis do cliente vintage? Existe uma persona "vintage lover"? Os "iniciados" no vintage têm vindo a aumentar?

Parece-me preferível listar razões para as pessoas procurarem comprar em lojas vintage, a traçar um ou mais perfis, sendo que existem clientes com mais do que uma razão enquanto outros são movidos apenas por uma causa.

Questões também pertinentes e que raramente surgem seriam: "Os vendedores/proprietários de negócios vintage terão um perfil-tipo ou vários perfis-tipo? Poderemos estabelecer uma lista de razões para vender vintage?"

As razões que movem comerciantes não serão nem uma só nem comum a todos. Algumas sim outras não. Conhecer/compreender quem são os vendedores e que espaços e ofertas põem estes ao dispor dos compradores deve preceder a tentativa de traçar perfis ou listar razões de compradores. Por isso, neste post fala-se de vendedores, o próximo incide sobre compradores.


(Um aparte sobre os vendedores: entre aqueles que são alvo de entrevista ou interesse jornalístico, muitos há que evocam repetidamente terem sido acometidos por um "bichinho" sabe-se lá vindo de onde, que se lhe instalou nas entranhas e não mais os largou. Sempre que ouço ou leio (...) "Fiquei com o bichinho do vintage", frase-doença recorrente em entrevistas, só me evoca a ténia ou outra espécie de parasita/verme e penso "será que a minha avó, quando me dizia /tens a bicha solitária/ era a isto que se referia?"".

É mais ou menos como quando alguém diz "tenho uma criança dentro de mim" e penso logo que estará grávido/a; eu prefiro ter um palhaço dentro de mim, que solto, às vezes em modo comédia, outras em modo filme de terror).


Voltando realmente ao assunto (acho que vou perder-me algumas vezes, daí cortar o post em dois, que vai ser longo), combinar todas as premissas de compradores e vendedores num negócio harmonioso nem sempre se torna fácil.

Diz-me a experiência que há quem se envolva neste negócio do vintage não por amor nem por dinheiro (ou ambos), mas por engano (entendendo "por engano" como "sem ter espírito vintage", que também não sabemos muito bem o que é!!!). Só para complicar a vida aos outros dois hipotéticos (amor e dinheiro).

E algum deste "engano" (com consequências mais para compradores pouco avisados do que para vendedores) é responsabilidade de uma "third party"; refiro-me a um jornalismo inconsequente e repetitivo _ em modo copy paste _ com pouco cuidado de investigação ou de informação prévia, feito por pessoas que não distinguindo elas próprias o que é vintage repetem e reciclam textos sobre vintage sem novidade, e/ou sem interesse próprio pelo tema, apenas porque "todos falam nisso agora" e (des)informam um público, induzindo-o em erro. Acrescem a este "drama", os/as "influencers" também pouco informados/as e consequentemente maus (más) informadores do que esperar de cada local e/ou vendedor/a. Mas isso dá tema completo para um dos próximos posts. Adiante.

Sempre afirmei que segui esta actividade (venda) por paixão: paixão pela beleza das peças feitas noutras épocas e conservadas até ao presente, paixão pela descoberta de verdadeiros tesouros, em estética e/ou qualidade... Ao refletir agora mais seriamente sobre isto, identifico mais a manifestação de um síndrome/quadro clínico do que uma paixão _ embora as duas coisas se confundam bastante na prática. Quero dizer com isto que a criação do negócio passou mais por um processo de terapia do que pela continuidade de uma paixão precoce. Esta explicação segue a mesma linha de projectos que criaram empresas de serviços de limpeza totalmente constituídas por pessoas com distúrbios obsessivo-compulsivos. Permitia-se assim, a estas pessoas, uma resolução pessoal e realização profissional através da concretização das suas compulsões e sem o estigma de perturbação ou doença. Também eu, após quase 40 anos de compra/coleccionismo de vestuário e acessórios vintage, descobri a solução para poder continuar a praticar o que me dava enorme prazer, sem culpa e sem problemas de espaço ou consciência. De facto, o grande prazer de muitas pessoas como eu não reside na venda (mesmo que sejamos vendedores) mas sim na descoberta e na compra das peças. As vendas só tornam possível o desejado: comprar tudo o que apreciamos e valorizar esse TUDO partilhando-o com um público, sem armazenar nem guardar. Uma terapia eficaz. E (mais ou menos) lucrativa.

Outros responsáveis pelo negócio do vintage não o farão por razões semelhantes. Conheço quem o faça como outro negócio qualquer, tendo as peças comercializadas o mesmo valor ou interesse que teria o vestuário em 1ª mão, móveis ou fruta, tendo apenas identificado uma "oportunidade" ou "um nicho de mercado" relacionado com tendências.

Há pessoas que apreciam as peças, mas não consomem eles próprios vintage regularmente enquanto outros são vintage "total look" (e os "in between") _ um pouco como os dealers que só vendem drogas pelo lucro, sem consumir vs. os que vendem para, em parte, continuarem a poder "sustentar o seu consumo/adição. Há pessoas que compram lotes "cegos" enquanto outras escolhem toda a sua mercadoria, peça por peça. Pessoas que se preocupam efectivamente com o ambiente e a sustentabilidade e outros que nem por isso, mas sustentam que sim (apresentem-me UM comerciante que tenha iniciado o seu negócio vintage para salvar o planeta!). Pessoas que vão à caça das suas maravilhas e outras que praticamente só recebem consignações no recanto das suas lojas. Pessoas que compram e vendem e outras que só vendem, negócios que se fazem exclusivamente on-line e outros com loja físicas, ou uma mistura de ambos ...

A panóplia é grande e os espaços e ofertas são também variados, de acordo com a postura de cada um, sendo mais provável que um negócio de vintage desenquadrado de uma verdadeira apreciação desse tipo de peças acabe mais cedo ou mais tarde por mudar de rumo ou desaparecer do que outro feito "por amor ao vintage".

Haja diversidade. Preciso é que as expectativas de quem nos procura estejam esclarecidas sobre o que vão encontrar.

Primeiro, há que distinguir entre comércio vintage e comércio de "segunda mão": há lojas que vendem ambos, outras só vendem um dos dois tipos de artigos. É rara a peça vintage em loja que não é de segunda mão. No entanto, é muito frequente encontrarmos lojas de "segunda mão" onde artigos vintage são raros ou inexistentes.

Não esquecer também as peças retro: hoje em dia muitas das cadeias multinacionais de vestuário apostam em alguns modelos retro como tendências, em cada "season", reproduzindo modelos vintage em produção actual.

Estas iniciativas de produção retro são excelentes salva-vidas da paciência dos vendedores vintage. Porquê? porque permitem a compradores que não amam propriamente o vintage em geral, mas gostam de um modelito ou outro mais "trendy", realizar uma compra fácil sem ter de se embrenhar na linguagem única do vintage.O retro salva o vintage de compradores ao engano e facilita a vida destes compradores:


"Tem calças de cintura subida"?...como as que se usam agora?" /sou cool e tal/ ..."que giro, olha esta blusa!... Olha que até tem umas coisas que eu usava!!! "tem isto mas em M?" / "Vai ter mais iguais? ... / "Ok, aqui não me entendo"/"... anda, vamos ao shopping que é mais fácil, tem S, M e L e posso comprar pra mim e pra miga igualzinho sem ciúmeira de estilo!".


... Salva a nossa paciência também, poupando-nos energia para "vintage lovers".


Temos ainda comércio vintage com foco direccionado, por exemplo, para artigos de luxo, brands, designers... Também neste nicho específico encontramos por vezes pouco cuidado na distinção entre vintage e segunda mão, com algumas lojas a comercializar artigos de luxo de segunda mão relativamente recentes ao mesmo tempo que se auto intitulam de comércio vintage, antes se assemelhando a outlets de uma determinada marca (há sempre algumas mais redundantes, entre os consignatários), muitas vezes com modelos ligeiramente fora de época mas longe ainda do rótulo vintage.


(Blusões de Oleg Cassini, fim da década de 80/ princípio de 90, à venda aqui e aqui

Há também lojas que apostam apenas em marcas/designers com projecção actual, enquanto outros incluem nas suas ofertas designers hoje em dia já desconhecidos de um grande público, se não forem interessados por Moda. Por exemplo, se dissermos Chanel, Prada ou YSL, Burberry's ...todos sabem do que se fala, mas se mencionarmos Hannae Mori, Jonhatan Logan, Oleg Cassini, Yuki Tori ou Krizia, teremos possivelmente de explicar a muitos clientes quem são/eram. Se vendermos um artigo Max Mara, a venda não carece de explicações, mas se for um Marni (linha feminina da Max Mara nos anos 80/90) teremos provavelmente de "explicar" a peça! Ou se apresentarmos um vestido da Mondi!...

No nosso caso concreto, não estamos direccionadas para artigos de designer, mas quando

acidentalmente temos algumas peças destas tentamos, ao comercializá-las, respeitar o valor do designer sem no entanto esquecer o respeito pelo cliente, na informação prestada e no equilíbrio entre o preço de aquisição e da venda.


( da esquerda para a direita, vestido Mondi, anos 90, vestido Escada Couture anos 80 e vestido Marc Jacobs, à venda aqui e aqui )

Esta foi uma grande volta antes de chegar finalmente ao que me trouxe a este post: a tal persona vintage lover, mais os que não sabem ao que vão e os que sabem mas não não são vintage lovers at all!

Ao falar dos vendedores foi impossível não ir falando também de compradores. Pudemos ir desenhando a ideia de que há diversidade e que (quase) todos eles merecem um lugar na variedade de ofertas e estratégias na venda. As razões que os movem são o assunto do próximo post!








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