Um vestido para o meu funeral

Ir às compras é ir às compras, mas nem sempre a mesma coisa é a mesma coisa. Cada ida às compras é um caminho. Uma solução para uma ou várias necessidades que não são exactamente as mesmas, quer para pessoas diferentes quer para uma mesma pessoa em diferentes momentos da sua vida ou apenas do seu dia. Comprar uma peça de roupa pode ser um afago na auto-estima, um cartão de visita, uma afirmação pessoal, social, política, um acto de pertença (a uma pessoa ou um grupo); pode ser ostentação ou generosidade, vaidade, frio, calor… pode ser um mundo de razões mais óbvias ou mais obscuras que a experiência, nos vai ensinando, que vamos constatando. no entanto, a experiência não nos conta tudo de uma só vez, permitindo-nos continuar a ser surpreendidos. Nunca me tinha ocorrido até agora que o acto de ir às compras pudesse fazer parte de um plano de vida que culmina inevitavelmente na morte.

Ela entrou, pequena e magra, 1,30m/1,40m de altura no máximo, quase desaparecida entre pele e ossos com mais de oito décadas. O corpo frágil envolvido numa blusa e saia que já tinham sido outros, antes até bonitos. Era como um brinquedo antigo que vai passando por gerações, daqueles que o tempo não estima mas a vida poupa. “Bom dia, meninas, deixam-me só ver se ainda está ali um vestidinho que vi há uns tempos?” “Com certeza, faça favor” _ a voz doce da Maria Inês. Eu só olhava. Percorreu o charriot. Com os olhos, os dedos. Com rapidez. “Pois, já não o vejo!”... "Era às bolinhas, preto e branco, de manga comprida..." "Pois, que pena, mas é natural, se já foi há uns tempos... "É pena, sim, era mesmo o que eu queria! Se eu lhes disser para o que o queria, as meninas vão-se rir de mim, mas vou dizer na mesma!" Sem nos deixar interromper sequer, continuou. "Eu já tenho 84 anos e a minha filha está sozinha e eu não quero dar-lhe trabalho, por isso estou a deixar as minhas coisas todas preparadinhas para quando for... Tenho tudo tratado, mas agora queria um vestido bonito para quando, ... vocês sabem, quando partir... E o que vi aqui era mesmo bom pra isso. " E, ao mesmo tempo que marcava a altura de manga com uma mão no braço oposto, repetia.... "Tinha manga comprida, sabem, é melhor manga comprida, que uma pessoa para isso deve ir ... assim, não acham?... " _ enquanto nos fitava atentamente, à espera de concordância. ("Pois, não sei, nunca fui" ) _ eu produzia mentalmente as respostas mais estúpidas, é sempre o meu sistema de fuga quando estou perante situações que me emocionam _ disparatar_ enquanto a ouvia e sentia o nó na garganta a crescer, tendo a certeza que nao ia conseguir dizer-lhe se o vestido às bolinhas era mesmo o ideal para se reencontrar com as suas pessoas de outros tempos. Dizer-lhe isso ou outra coisa qualquer. Sobre a forma clara e organizada com que estava a planear a sua saída de palco. Sem dar trabalho a ninguém. Veio-me à cabeça a frase que me acompanha desde sempre. "Nascemos sozinhos e morremos sozinhos." Por mais que se queira contrariar isto, ninguém faz o trabalho por nós. Por mais que exista uma doce Maria Inês para nos aquecer o coração enquanto escolhemos a roupa mais apropriada para sair de cena, saímos sozinhos. E estar ali a contemplar alguém como aquela senhora a conversar calma e claramente sobre planificar compras para o seu funeral, enquanto a morte segue sendo tema tabu gigante de todos os nossos medos ocidentais, fez-me querer ser ela. Aprender com ela. Perder o medo. Ganhar sentido prático. E ganhar prazer no acto_ porque comprar um vestido para o meu funeral pode ser uma ida às compras tão boa/motivadora/gratificante como qualquer outra. Ela ainda estava a falar. "este também é bonitinho. E de manga comprida. Também dava!..." Fui covarde e disse o que consegui. "Maria Inês, vou ao armazém, OK? Se precisares de mim, chama!" ...e deixei-a a ela a lidar sozinha com os figurinos do funeral da senhora. (Como é possível eu ter sequer pensado um dia em ser doula de morte/que pensei, se nem a mala eu consigo ajudar alguém a fazer?) A Inês acenou com a cabeça, via-lhe o amor sofrido nos olhos quando me acenou, e ainda ouvi a voz da senhora "... não quero com cores..." antes de sair a refugiar-me na minha desculpa de armazém. A rua, cheia de gente. Seguimos os nossos caminhos acompanhados dos medos de 1º mundo_ de pandemias, de cancros, de todos os vírus que hão-de vir, de todas as mortes que nos hão-de acontecer até que uma aconteça mesmo _ normalmente, diferente de todas as que projetámos/ensaiámos para nós. Quando seria muito mais fácil e prazeroso se fossemos comprar um vestido para o nosso funeral.

2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

"Vintage business": Concorrência ou competência?

Algumas considerações que tenho tecido, com base na experiência, sobre os pequenos grandes males do "vintage business": A falta de cooperação, o individualismo Não sendo esta uma característica exclus