O Macacão: Moda, Manifestos Políticos e Trabalho

O macacão é uma peça de vestuário com uma história muito especial, tecida por múltiplas histórias; uma peça associada, para além da Moda, à evolução das condições de trabalho, ao contexto gerado pelas 1º e 2ª Guerra Mundiais e a movimentos políticos de defesa de direitos humanos, o que não acontece com outras peças de vestuário, pelo menos de forma tão consistente.

Não sendo a única razão que me leva a escrever sobre ele, é razão suficiente para querer partilhar aqui algumas das suas histórias.

A atribuição da sua origem não é precisa nem reúne acordo daqueles que sobre ele escrevem. Uns situam o seu aparecimento em 1919, aquando da produção de uniformes para os paraquedistas, enquanto outros recuam bastante mais no tempo, referindo o aparecimento das primeiras "peças inteiriças" por volta de 1790 e a produção dos primeiros fatos-macacos para trabalhadores das fábricas por volta de 1850, com a necessidade de unir o avental às calças, criando um fato/uniforme de trabalho que protegesse melhor o corpo do trabalhador de todo o tipo de agressões a que estaria sujeito.

Se falarmos de Moda, quase todas as referências são unânimes em atribuir a Thayath (Ernesto Michaelles, designer italiano ligado ao Movimento Futurista) a criação do primeiro macacão em design de moda, o TuTa (1920), peça inteira "unisexo", versátil e confortável; mas foi pela mão de Schiaparelli, nos anos 30, marcados pela austeridade de tecidos e modelos, que o macacão chegou aos desfiles de Alta-Costura.


(fonte: https://herowndestiny.com/la-tuta-di-ernesto-thayaht)


Por esta altura também, num outro "mundo" paralelo ao da Moda mas distante em significado, surgiu nos EUA um movimento de protesto contra a crise económica da época, designado por "Clube dos Macacões"; ao regressarem da guerra (período em que tinham sido substituídos pelas mulheres, nas fábricas e no uso do fato-macaco de trabalho), os homens deparam-se com preços inflacionados do vestuário, consequência da crise económica; como reacção a essa inflacção, cria-se um movimento de protesto designado por "Clube dos Macacões" (com expressão significativa em todos os EUA _ por exemplo, numa só localidade do Alabama os manifestantes eram em número de 5.000), cujos membros (de todo o tipo de profissões, não só operários fabris) defendiam que se abandonasse o uso de fatos, recorrendo ao uso diário de fatos-macacos até que os preços do vestuário baixasse (o que acabou por ser conseguido).


Nas histórias que fui coleccionando, o macacão faz História por caminhos paralelos, "nos mundos" do trabalho da política e da moda. Observa-se como ele se foi modificando e adaptando às tendências de moda em cada época, mas, ao mesmo tempo, como evoluiu no campo profissional _ não só operário, como altamente especializado (desde o trabalho científico de laboratório até o caso dos astronautas, só para citar dois exemplos) e/ou desportivo (desportos motorizados, aquáticos, de neve, esgrima...) _ ou ainda como foi "repescado" por movimentos e manifestos políticos e de cidadania. A este respeito, recordo aqui uma situação conhecida de todos/as:

O cartaz dos anos 40, em que uma mulher enverga um "blue worker overall" e se pode ler a célebre frase "We can do It!", foi originalmente criado por Howard Miller (1943) para a Westinghouse Electric como forma de motivar as mulheres trabalhadoras num período de guerra, estando elas a sustentar sozinhas a força de trabalho fabril (além de tudo o mais). Observamos novamente em período de guerra o macacão presente no simbolismo da força de trabalho. No entanto, a imagem deste cartaz só ganhou força e atenção de um vasto público muito mais tarde, quando, entre finais dos anos 70 e início de 80, foi recuperado pelos movimentos feministas, como forma de afirmar as capacidades da mulher, na luta pela igualdade de direitos. O macacão, de novo, presente. No simbolismo que tornou famosa a imagem de "Rosie, the Riveter".



(da esquerda para a direita: cartaz do movimento Clube dos Macacões e imagens do cartaz "I can do it", de Howard Miller, do qual existem agora inúmeras versões)


Quanto aos caminhos da moda _ voltando atrás _ vários foram os impulsionadores do uso do macacão, não como fato de trabalho, mas como peça de moda: desde o impulso do cinema nos anos 40 e 50 _ com grandes estrelas de Hollywood, como Marilyn Monroe, a levá-lo à ribalta _ ao protagonismo que lhe foi dado por figuras imortais do mundo da música _ lembremos Elvis Presley e David Bowie _ culminando nos designers que o lançarem (veja-se o caso de Emilio Pucci, desenhando fatos de esquiador inicialmente para amigos), o valorizaram (como Corrèges ou Mary Quant), o "futurizaram" (como Thierry Mugler, com a sua criação de Alta-Costura em 1995, o Cyber jumpsuit), ou o incluíram e continuam a incluir nas suas coleções anualmente, apenas adaptando formas e tendências, mas prolongando a vida desta peça nas coleções de moda até ao presente.


(da esquerda para a direita: Marilyn Monroe com um macacão-calção, dois exemplares de macacões de Presley e um dos mais famosos macacões das performances de Bowie e um dos irreverentes macacões futuristas de Thierry Mugler, criação para a Alta Costura em 1995)


Sendo uma peça confortável e versátil, compreende-se a sua sobrevivência :)

(sobre o conforto, quero fazer aqui um reparo àqueles macacões que, pela forma, nos podem causar "sérios" problemas _ abertura com fecho, nas costas para agravar a coisa!!!_ nas situações mais inconvenientes! _ mesmo que os surfistas possam ir à casa de banho sem sair do fato, experimentem vocês a odisseia WC, numa discoteca, depois de algum excesso de álcool e metidos/as num macacão com fecho nas costas!... Já para não falar daqueles momento de "amor físico" em que a abertura encrava a meio caminho entre o prazer e o desconsolo total perante um macacão ditador :)


(macacões à venda na Mão Esquerda, aqui e aqui)

Queixas à parte, as tendências "no gender" de alguns criadores de moda e produtores enquadram-se com toda a facilidade nas características que o macacão apresenta, sendo este por isso um foco preferencial de movimentos "slow fashion" e "no gender fashion movements", novos conceitos de moda.

Numa próxima publicação partiremos exactamente daqui, para abordar o conceito "no gender" no design de moda.



(macacão à venda na Mão Esquerda, aqui e aqui)


EN


The Jumpsuit: Fashion, Political Manifesto and Work


The jumpsuit is a garment with a very special history, woven by multiple stories; a piece whose history is associated, in addition to Fashion, to the evolution of working conditions, to the context generated by the 1st and 2nd World Wars and to political movements, something that does not happen with other pieces of clothing, at least so consistently.

Not being the only reason why I write about him, it is enough reason to share some of his stories here.

The attribution of its origin is not precise nor does it agree with those who write about it. Some place their appearance in 1919, whit the production of uniforms for paratroopers, while others go back further in time, referring to the appearance of the first "whole pieces" around 1790 and the production of the first overalls for factory workers around 1850, with the need to join the apron to the pants, creating a work suit / uniform that would better protect the body of the worker from all kind of work dangers.

If we talk about Fashion, almost all references are unanimous in attributing to Thayath (Ernesto Michaelles, Italian designer linked to the Futurist Movement) the creation of the first jumpsuit in fashion design, the TuTa (1920), a whole piece "unisex", versatile and comfortable; but it was by Schiaparelli's hand, in the 1930s, marked by the austerity of fabrics and models, that the jumpsuit arrived at Haute Couture fashion shows.


By this time, too, in another "world" parallel to that of Fashion but distant in meaning, a protest movement against the economic crisis, called "Clube dos Macacões", appeared in the USA; on returning from the war (a period when they had been replaced by women, in factories and when wearing work overalls), men face inflated clothing prices as a result of the economic crisis; as a reaction to this inflation, a protest movement called "Club of the Macacões" (with significant expression in all the USA _ for example, in a single location of Alabama the members were more than 5.000; and they were workers of all sorts of professions, not just factory workers) advocated abandoning the use of suits, resorting to the daily use of overalls until clothing prices went down (which has been achieved, later).

In the stories I collected, the jumpsuit makes history in parallel ways, "in the worlds" of work, politics and fashion. It has been changing and adapting to fashion trends in each era, but, at the same time, it has evolved in the professional field _ not only for factory workers, but also in highly specialized works (from scientific laboratory work to astronauts, just to mention two examples) and / or sports (motorized, water sports, snow sports, fencing ...) _ or even how it was "recaptured" by political / citizenship movements and manifestos. In this regard, I recall here a situation known to all:

The 1940s poster, in which a woman wears a "blue worker overall" and you can read the famous "We can do It!" statement, was originally created by Howard Miller (1943) for Westinghouse Electric as a way to motivate women workers in a period of war, while they were supporting the factory workforce alone (besides everything else). Again in wartime, the overalls are present, in the symbolism of the workforce. However, the image of this poster only gained strength and attention from a vast audience much later, when, between the late 70s and early 80s, it has been "recovered" by feminist movements, as a way of affirming the capabilities of women, in struggle for equal rights. The overalls, again, present. In the symbolism that made the image of "Rosie, the Riveter" famous.

As for the fashion paths _ going backwards _ several were the drivers of the use of overalls, not as a work suit, but as a fashion piece: since the impulse of cinema in the 40s and 50s _ with great Hollywood stars, like Marilyn Monroe , taking him into the limelight _ the role that immortal figures in the music world gave him _ remember Elvis Presley and David Bowie _ culminating with the designers who launched him (see the case of Emilio Pucci, designing skier suits initially for friends), prized it (like Corrèges or Mary Quant), "futurized" it (like Thierry Mugler, with its creation of Haute Couture in 1995, the Cyber jumpsuit), or included it and continue to include it in their collections annually , just adapting shapes and trends, but extending the life of this piece in fashion collections up to the present.

Being a comfortable and versatile piece, its survival is understood :)

(about comfort, I want to make a note here, to those overalls that, by its shape, can cause us "serious" problems _ opening with zipper, on the back, to get it worse !!! _ in the most inconvenient situations! _ even if surfers can go to the bathroom without leaving the suit, try the "toilet" odyssey , in a nightclub, after some excess of alcohol, you struggling with a jumpsuit, the zipper on the back! ... Not to mention those "physical love" moments in which the opening/zipper or other, gets stuck halfway between the pleasure and the total dismay, due to a dictator's overalls :).

Complaints aside, the "gender" trends of some fashion designers and producers fit easily with the features that the overalls have, which is why it is a preferential focus of "slow fashion" and "gender fashion movements ", as well as other new fashion concepts.

In a next publication we will start exactly from here, to address the concept "no gender" in fashion design.


1 comentário