Moda "no gender" é “male gendered”? Visita aos movimentos de moda de género neutro actuais, parte 2

Parte 2

(In)congruências e contradições: criação e produção de vestuário de género neutro no universo da Moda actual.


Parti para esta procura com a ilusão de encontrar movimentos inovadores de moda que concretizassem a ideia: "A moda não tem género".

Os resultados centraram-se (quase) invariavelmente em temas como "9 Sustainable Gender-Neutral & Gender-Inclusive Brands For Your Next Wardrobe Refresh ", "14 Gender-Neutral Clothing Brands For All....", "Gender neutral fashion brands to know...", ou até "Men can wear dresses....!", não enveredando por artigos científicos e/ou trabalhos académicos.

Listavam-se "novas" linhas de criação e produção de vestuário alegadamente no gender ou de género fluido, aliadas muitas vezes a outros conceitos também "very trendy", como sustentável e/ou slow fashion.

Na prática? Vestuário de traços quase minimalistas, linhas retas, cinturas elásticas, ganchos e cortes amplos, cores neutras; quando há padrões, os preferidos são quadriculados, geométricos, abstratos e tartans; tecidos, opta-se pelos "naturais" (linho, seda, algodão...).

Por muito que as ofertas estejam embrulhadas para presente no gender, são muito mais do mesmo: tentativas de neutralidade através de linhas seguramente mais "masculinas" (ver post anterior).

Representam estratégias preguiçosas, a meu ver, quanto à intenção de cumprir neutralidade de género. Cumprir este requisito na indústria da Moda deveria focar-se em desconstruir os enraízados conceitos que orientam todo o design e produção de moda, com peças para géneros bem definidos _ para muitos ainda em sistema binário _ e mutuamente exclusivos, resultando em que apenas um determinado género tenha acesso ou seja incentivado a adquirir determinadas peças de vestuário. Qualquer pessoa deve poder usar qualquer peça de vestuário. É esta a ideia original que deveria levar à desconstrucção.

No entanto, o que encontramos é um movimento de criação de peças que atenuam morfologias, traços físicos e/ou identitários considerados pelos criadores/produtores como inibidores de compra/uso por parte de algumas pessoas. Na prática, retiram-se às peças formas/características marcadamente femininas, quer físicas (estrutura óssea e outras caraterísticas morfológicas) quer de identidade de género estereotipada (padrões florais, tons rosa ou bubblegum, folhos, laçadas, etc...). O “gender-neutral look“ acaba por ser apenas mais um estilo ou tendência, entre outros, e muito pouco neutro, em género. Mais uma vez, o male gendered , agora disfarçado de no gender!


(alguns exemplos de criações alegadamente no gender que encontrei nas pesquisas realizadas)


Quando critico as produções/as peças, não critico a estética: sou fã deste tipo de vestuário (fui inclusive praticante do estilo tomboy nos anos 80). A minha paixão pelo vestuário asiático em parte prende-se com características como estas, que agora são generalizadas aos movimentos no gender de moda.



( eu a apostar no tomboy style nos “late 80’s”)


Os asiáticos sempre deram cartas neste tipo de design sem ter de, para isso, defender statements alegadamente inovadores ou de defesa de direitos de género. Aposte-se na exuberância ou no minimalismo (como ilustram aqui algumas criações de Rei Kawakubo/Comme Des Garçons e de Issey Miyake), nenhuma característica da peça definirá um género se não for essa a intenção de quem concebe/produz/vende. Nas imagens que mais abaixo vemos podemos confirmar que não serão folhos e cores “pinky“ ou padrões florais que definirão que a peça é "feminina", da mesma forma que não serão traços mais sóbrios, rectos ou geométricos que definirão e destinarão a peça "ao masculino".


Aliás, o fenómeno no gender actual na moda é uma preocupação marcadamente do mundo ocidental. A experiência pessoal de estadias regulares no Japão e/ou na Tailândia por exemplo, permitiu-me, desde o fim dos anos 80 a esta parte, observar e conviver com pessoas ditas masculinas (impecavelmente) vestidas com roupas ditas femininas _ ou vice versa_ a trabalhar em todo o tipo de actividades, ou a circular nas ruas sem lhes ser votada qualquer atitude discriminatória, excepto por parte dos turistas ocidentais.


( da esquerda para a direita, criações de Rei Kawakubo/Comme Des Garçons, e criações de Issey Miyake _ fotos 2 e 3 _ dos anos 80, no Metropolitan Museum of Art)


O que critico na maioria das estratégias com que me deparei não é a estética, que aprecio bastante. É o facto de essas serem apresentadas como a concretização de um manifesto de não-discriminação que me continua a parecer acentuadamente discriminatório _ e que, como tentativas de desconstrução de moda de género, resultam fracas e pouco consistentes. Apenas funcionam para comercializar peças com uma determinada linha/estilo (nada mais que isso) através de uma "cosmética" de princípios que não cumprem.


( mais algumas criações actuais alegadamente “no gender”


Reclama-se a si a acção e o contributo e não se faz reflexão crítica da prática nem dos resultados. Acabam por ser formas preguiçosas de diluição de características que espartilhariam pessoas em peças de acordo com o género, limitando-se a "tentar colocar todas as variedades de pessoas no mesmo saco/na mesma roupa". Apenas optimizando pelo "masculino".

Assumir e declarar que "as roupas não têm género" deveria ser muito mais do que o acima descrito. Deveria significar que toda a gente tem direito a usar todo o tipo de vestuário que entender sem que, por isso, lhe seja atribuída qualquer "classificação de género" ou, ao contrário, qualquer crítica por estarem "a usar peças do género errado"; e que, para isso, tem de existir um trabalho implicado, por parte das pessoas e entidades responsáveis/envolvidas, de facilitação do acesso de todo o tipo de vestuário a toda a gente, independentemente de géneros ou sua ausência.

Possibilitar isto implicaria, na prática, trabalhar a dois níveis: conceptual e de produção.

Quanto ao conceito, implica liberdade total de criar, não estereotipificar as criações, não designar géneros para uso das peças em criação, não fazer depender as criações de apenas um género (embora a inspiração de um criador possa ter como base determinado grupo-alvo).

Quanto à produção, implicaria diversificar o acesso, distribuir, publicitar e colocar (tanto no espaço físico como online) sem distinguir ou separar por género. Para permitir o acesso inclusivo, seria necessário, em vez da padronização pelo "masculino" que tem vindo a ser feita, inovar nos "size charts", integrando/incluindo diferentes morfologias nos cortes de uma mesma peça, produzindo opções de compra que se estendessem para além dos habituais tamanhos _ dando assim possibilidade a que, todas as pessoas que quisessem, pudessem usar uma mesma peça, seja ela um vestido de organza em padrão floral, umas calças de smoking ou uma blusa de laçada.

Só então teríamos estratégias coerentes com os princípios que representam.

Ao reconhecermos diversidade nas pessoas, com igual direito de acesso às peças, em vez de reduzirmos diversidades a uma única linguagem de moda alegadamente representativa do no gender mouvement, deixaríamos de ter estratégias de criação "win-loose" (masculino -1/ feminino e outros géneros ou nenhum - 0), pasando a estratégias "win-win" quanto a não distiguir por género ou sua ausência, entre pessoas.

Uma outra possibilidade (real, está já a ser praticada por alguns seguidores de no gender fashion genuínos) seria o "feito à medida", solução que permite o acesso universal de uma criação a toda a gente que queira usá-la, porque é dedicado a cada pessoa para quem se produz a peça.

Em termos comerciais? Combina perfeitamente com o conceito da "slow fashion" mas é obviamente um caminho ainda longo quanto aos lucros do processo. Por isso, também, pouco atractivo para muitos que se auto proclamam seguidores do movimento.

Nem tudo foi, no entanto, desilusão nesta pesquisa: encontrei estratégias/criadores que considero genuínos na vontade de inovar e na defesa do conceito ( foi o caso da Origami, criações de lingerie e swimwear da responsabilidade de Rachel Hill, citando um exemplo, https://origamicustoms.com/); encontrei também pessoas com contributos fortes e profundamente coerentes, entre discurso e prática. A propósito, já com este post concluído, foi-me dado a conhecer, através de uma cliente/amiga, o trabalho de Alok V Menon, com cujo discurso me identifiquei completamente. Fico sempre muito contente quando encontro alguém que expressa de forma completa e clarissima aquilo que penso e não consigo expressar tão bem. Embora com o Alok a dizê-lo muito melhor do que eu, decidi publicar o que já tinha escrito, mas deixo aqui o monólogo dele para a BoF voices 2019, no final deste post, para que o possam apreciar tanto quanto eu.

Estas excepções mostram-nos que há um caminho a percorrer, bem diferente do que muitos alegam ter conseguido.

Produzir moda para Pessoas, muito mais do que um discurso ou uma estratégia comercial é um processo complexo e difícil de cumprir, pelo nível de exigência conceptual, de desconstrução de valores, estereótipos e (pre)conceitos enraízados, de mudança de discurso. E até financeira, de negócio. Se este processo complexo não antecipar a produção, não há no gender que vingue.


Como co-responsável de um comércio de vestuário vintage, serviu este post também para reflectir sobre que contributo podemos nós dar. Não somos envolvidos na criação e produção das peças, já que comercializarmos vestuário e acessórios criados noutras décadas, logo, longe de movimentos no gender actuais.

No entanto, contribuir é possível: não separar/localizar peças por género, não expôr nos manequins peças a partir de uma linguagem apenas masculino/feminino, não fornecer informação através de um discurso discriminatório, mas no entanto informar _ sobre cortes e tamanhos destinados originalmente a um dos géneros do binário. Por exemplo, não dizer "estas calças são para mulher" porque efectivamente são para toda a gente, são para quem as quiser usar; mas informar que "são de corte feminino" ou que "são um tamanho 36 feminino", porque isso significa um corte de perna com medida diferente do masculino, um gancho mais curto do que o mesmo 36 "masculino", etc.

Trabalhar para informar, mas não para discriminar, ao nível das várias formas de comunicação disponíveis no contacto com as pessoas-clientes é a nossa forma possível de contribuir para um movimento no gender. E nem estes pequenos contributos serão fáceis de pôr em prática: misturar as peças, não as separar por género, vai dificultar a escolha/compra a muitas das pessoas que nos frequentam (uma maioria habituada a comprar peças destinadas originalmente a um dos géneros do binário) e talvez as vendas. Os princípios acima das personalidades, caminho nem sempre fácil de articular com justiça _ para que tomemos consciência da complexidade de tarefas aprentemente simples, Se é assim em pequenos passos, imaginem todo o caminho a percorrer para uma verdadeira no gender fashion!

(que é como quem diz que é mais fácil falar do que fazer, ou que "pepper in others’ ass is refreshment, my dear”)





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