Curiosidades Portuguesas na Alta Costura_ Primavera/Verão de 1993 em Paris

A conjuntura, não só europeia como mundial (embora os EUA estivessem já a recuperar), era, neste ano de 1993, de recessão, de rescaldo da crise financeira de 1987 (com impacto superior à de 1929), agravada pela Guerra do Golfo (1990/1991) e crise do petróleo. A recessão, na Europa, determinava o rumo dos acontecimentos _ em França, por exemplo, falava-se em recessão pela primeira vez (e age-se em conformidade) desde 1975.

1993 foi, por isso, um ano (ainda) difícil, em que "recuperação" era uma ideia medrosa, embora já presente. Falava-se então do "fim da Alta Costura". Mas quem assistisse aos desfiles dessa Primavera perceberia que a Alta Costura (ou Haute Couture, se preferirmos o original) estava viva e bem viva, não seguindo as regras do mercado, no que respeita a crises ou estratégias relacionadas.


Escolhi o ano 1993 para contar histórias de moda por duas razões:


_ porque atravessamos actualmente um momento onde qualquer hipérbole que possamos usar para falar de crise é pequena, ao referirmos a crise que ocorre em nós, a par da crise mundial actual (de saúde física e mental, económica, social, afectiva, artística... só para enumerar alguns dos campos mais óbvios), o que torna oportuno lembrar momentos de "outras" crises, já ultrapassadas


_ e porque 1993 foi um ano em que as colecções de Alta Costura trouxeram consigo "ventos mediterrânicos", especificamente portugueses.


Estas curiosidades portuguesas que mencionei dizem respeito a duas situações:


_ à colecção apresentada por Angelo Tarlazzi (o criador de moda italiano "mais francês de sempre"), para a Guy Laroche

_ à apresentação, por Oscar de La Renta, daquela que foi a sua primeira colecção de Alta Costura, a convite de Pierre Balmain.


No caso de La Renta, o facto anima a nossa portugalidade apenas por se tratar de alguém com ascendência portuguesa (ascendência a metade_ mãe portuguesa e pai espanhol). Mesmo sendo reconhecidamente um americano/dominicano em Paris :), o sucesso de La Renta _ que começou com os anos de trabalho com Balenciaga, seguiu com a apresentação da sua primeira colecção de Prêt-a -Porter em nome próprio, e em 1993 culminou com o convite de Balmain para desenhar uma primeira colecção de Alta Costura _ fez com que não me poupasse de comentar.

Porque _ reação que não sei se é tipicamente portuguesa ou não _ fazemos muitas vezes questão de salientar esta "origem portuguesa" em pessoas que têm êxito, seja no desporto, nas artes, na ciência ou o mais que não me lembro, e que, não obstante terem outra nacionalidade, são de "origem" portuguesa (por pais ou avós ou outros....)... embora seja pouco provável que, muitas delas saibam de Portugal realmente alguma coisa, ou tenham desenvolvido qualquer tipo de afinidade/ identidade com o nosso país, por via da questão dos ascendentes ou ancestrais. Mas que nos fazem dizer de coração cheio que "são nossos", orgulhosos do seu sucesso que achamos só poder dever-se aos genes portugueses que possuem, genes esses que, por nossa vontade, pertencem mais a Portugal e a nós do que aos próprios.


(da esquerda para a direita, gravata Pierre Balmain à venda na Mão Esquerda, aqui; criações Oscar de La Renta para Pierre Balmain, Alta Costura Primavera/Verão 1993; Hola especial)



Voltando à moda, e falando agora de Tarlazzi, o designer foi buscar inspiração para a sua colecção de Primavera/Verão à azulejaria portuguesa, refletida nas aplicações que utilizou nas peças, associadas a bordados dourados (sobre peças pretas, brancas ou de cores pálidas). Embora tenha tentado investigar, fiquei sem perceber como é que Tarlazzi conheceu a azulejaria portuguesa, se nos visitou ou apenas viu livros/catálogos, fotos ou postais (a internet teria sido uma boa hipótese, se não estivessémos a falar do ano de 1993). Mas, adiante. Interessa sim que foi a forma que o criador encontrou para melhor enriquecer as suas criações de Alta Costura nesse ano). Tarlazzi considerou a sua utilização na sua colecção de Alta Costura e não na de Prêt-a-Porter pela riqueza que resultava do trabalho de aplicação e bordado.


(da esquerda para a direita, criações de Angelo Tarlazzi Alta Costura Primavera/Verão 1993 em que se vêm as aplicações sobre as peças; o criador, com os esboços da sua colecção; Hola especial)


Estas são apenas pequenas curiosidades de moda, num ano em que se reescreveu a palavra crise e a palavra recuperação já era um esboço feliz. E em que, contra ventos e marés _ financeiras ou outras_ a Alta Costura continuou a brilhar, como se estivesse alheia ao curso dos acontecimentos ou num patamar diferente desses acontecimentos.

Mudando estratégias de mercado, mudando criadores de casa em casa, mudando número de clientes, conforme as épocas (cerca de 2000, nos anos 90, contra 4000, actualmente _ mas com apenas 200 clientes regulares), a Alta Costura prevalece bem viva até ao presente.

Vivemos uma nova crise; de causas e efeitos até à data desconhecidos e nunca antes experimentados.

Sobreviverá a Alta Costura a mais uma crise, aquela que se nos afigura a crise de todas as crises?